Localismo, o antídoto contra a arrogância ideológica
Fábio Zucco
Todo movimento político tem que ter uma base teórica, e em seu bojo um grupo de pensadores e intelectuais que debatam e construam essa base. Não é diferente no Movimento o Sul é o Meu País-MSMP. É em torno desses fundamentos, a partir dos quais edificam-se princípios, que os simpatizantes e ativistas pensam estratégias, projetam o modelo de governança que desejam para o novo e sonhado país, mantêm a coesão interna do grupo.
As discussões acerca desse alicerce filosófico têm como ponto de partida a observação da realidade posta, seja ela positiva ou negativa, o passado ou o presente. Tudo visando um projeto de futuro que extraia o melhor das experiência pretéritas e hodiernas, bem como das visões de mundo daquilo que comumente chamamos de ideologia.
Dada as muitas variáveis em jogo: os “experimentos” políticos, econômicos e sociais a serem analisados, as muitas ideologias e suas vertentes, os casos concretos e suas nuances, visto ainda que a interpretação pessoal disso tudo carrega em si, necessariamente, uma enorme carga de subjetividade, é de se aceitar que nenhum modelo de organização social e de governança vai ser do agrado ou aceitação da maioria. No mesmo sentido, é de se questionar se seria justo ou adequado um modelo de governança que estivesse sob um único guarda-chuva ideológico, impondo a todos os cidadãos a mesma visão de mundo, os mesmos valores, os mesmos princípios.
Sob outra perspectiva
Parece um beco sem saída, uma verdadeira sinuca de bico. Do que adianta discutir a melhor ideologia, o melhor modelo de organização social e de governança, se inexoravelmente vai se chocar, ao ser colocado em prática, com a concepção de mundo de boa parte da população?
Sempre que um problema se apresenta insolúvel, a solução emerge no momento em que passamos a ver o problema por outro ângulo, a partir de outra perspectiva. Sendo assim, no lugar de buscarmos a melhor ideologia para o Sul Livre, devemos pensar na melhor forma de organização social em que essas ideologias — por mais contraditórias que sejam — possam se adequar ou seus defensores terem espaço para tentar convencer os cidadãos de sua superioridade prática e moral. Mas, ao mesmo tempo, não pode ser de tal forma que os partidários das pautas vencidas se sintam frustrados ao ponto de esmorecer no seu engajamento social. Também a disputa não pode ocorrer numa dimensão do tudo ou nada, conceitual e territorialmente, em que aos vencedores todo o poder; aos vencidos a obediência e a resignação.
O nosso Movimento existe há mais de 30 anos, e seus idealizadores nos mostraram o caminho para sairmos desse impasse, e não cairmos, nós também, nessa polarização de direita X esquerda. Eles plantaram o ideal de Municipalismo, o qual, cabe a nós agora aprimorarmos, e jamais relegá-lo ao segundo plano.
Digo isto, porque tenho participado — meio timidamente, confesso — de vários debates em nossas salas de bate-papo. Ambiente rico, com participantes de peso e sólida formação intelectual. Muito se aprende nesses debates. E tenho percebido que esse corpo de pensadores tem cumprido sua função: a de pensar o Sul Livre. Não obstante, contaminados como todos nós estamos pelo zeitgeist, esses debates, não raro, têm caído na vala comum do direita X esquerda, tendo como pano de fundo a deprimente realidade política, econômica e social brasileira. Há dois problemas aí. Primeiro: acabamos pensando o Brasil em vez de pensar o Sul; segundo: negligenciamos a herança de nossos fundadores, que deixaram o mapa da mina para superar essa dicotomia.
Inteligência suprema
Todos somos humanos, e tendemos a acreditar que nossa visão de mundo e nossas ideias são as certas. E são mesmo! Estou convicto de que se colocássemos em prática todas as minhas ideias, Santa Catarina seria o melhor lugar do mundo para se viver. Santa Catarina não, o Sul inteiro seria o paraíso na Terra. E por que não o Brasil!? Fosse eu o governante-mor dessa Terra de moral duvidosa, o Alexandre de Moraes cabeludo, o Brasil teria que fechar com muros seus milhares de quilômetros de fronteira, tamanho seria o fluxo de imigrantes. Até os suíços se mudariam para cá. Eu tenho as melhores ideias, só não tenho o poder. Tivesse, o mundo inteiro seria um local de paz e prosperidade! Aliás, tendo o poder, e podendo direcionar recursos para a exploração espacial, não faltariam capitães Kirk para propagar minhas superiores ideias pelas galáxias. O universo seria o limite!
Claro que cada um de nós tem as melhores ideias e as melhores soluções. O problema é que elas não coincidem. Discutir a melhor ideologia para o Sul Livre é mais ou menos isso: impor a ideologia dominante do grupo pensante, do qual eu, com orgulho, faço parte.
Os debates têm sido direcionados, por vezes, aos pormenores de o quanto de ideologia esquerdista seria aceitável no nosso Movimento de predominância de ideologia direitista. Usa-se, inclusive, exemplos concretos de políticos que tomam medidas contraditórias. Tem-se discutido os rótulos creditados ao Movimento de ser capitalista, liberal e conservador, mas que não abarca algumas funções que o Estado sulista deve ter, segundo alguns. Busca-se uma modulação fina para saber o quanto devemos virar para a esquerda ou para direita, visando, se não agradar a todos, mas pelo menos chegar a uma equação ideológica cujo resultado seja o melhor para toda a nação sulista. Por outro lado, simplesmente não tenho visto um debate sequer acerca daquilo que para mim é o principal, e o norte para sairmos da vala comum dessa polarização toda: o Localismo.
Não sei se quando nossos fundadores abraçaram a causa municipalista, ou localista, pensavam em ter um modelo para além das discrepâncias ideológicas atuais. Mas é exatamente assim que eu vejo a coisa. E percebi isso enquanto escrevia Locuscracia. Fui compreendendo que todo modelo ideológico é alimentado por uma arrogância, tipicamente humana, de que meu modelo mental é aplicável a toda a sociedade, ou a todas as sociedades. Falamos muito, no Movimento, em respeitar usos, costumes e tradições locais, mas ficamos elucubrando modelos ideológicos e governamentais a serem aplicados ao atacado, indiscriminadamente, dando pouca margem de ação às localidades. Então, pergunto: não deveriam essas decisões serem tomadas pelos cidadãos em suas localidades ou municípios, primordialmente via referendo popular?
Ser localista
Vamos a alguns exemplos práticos. Um dos temas constantes nos debates é o da saúde pública. O termo em si já nos remete a uma posição ideológica: “pública”. Mas vá lá, podemos entender também como saúde “do povo”. O que se discute é se o Estado sulista deve ou não assumir essa função. Quando se faz isso está se pensando em todo o Sul, em todos os 30 milhões de sulistas que deverão bancar esse enorme encargo sem terem optado diretamente, nem opinado. Os “iluminados” intelectuais sulistas devem ter esse poder!? Não é muita arrogância!?
Da mesma maneira podemos pensar a questão da educação formal. Quem deve propiciar escola pública? Alguém deve propiciar? E a segurança? E remédios? E assistência aos desvalidos? E os presídios? Outra questão: quais serão os direitos dos trabalhadores? Haverá tais direitos ou bastará o contrato firmado entre patrão e empregado?
Cada uma dessas questões é respondida segundo um viés ideológico. Mas os detalhes são tamanhos, as variáveis tantas, que querer propor soluções ao atacado é, por si só, autoritário, pois desrespeita o direito da população local de decidir. É insistir no modelo brasileiro, tudo de cima para baixo.
Não digo que a discussão direita X esquerda não deva acontecer. Mesmo porque, em se tratando de Localismo, estamos muito mais próximos do ideário da direita e da defesa dos direitos individuais, enquanto que a esquerda se identifica mais com a centralização do poder e, como temos visto ultimamente, com a restrição das liberdades individuais, em especial com a limitação pesada da liberdade de expressão. No entanto, essa mesma esquerda levanta pautas sociais que podem ser abraçadas pelos cidadãos de alguma localidade. Seja como for, propor soluções para aplicação indiscriminada em todo o Sul, está bem próximo da solução socialista. E o que não falta neste mundo incoerente são socialistas de direita.
O Localismo deve ser visto, portanto, não somente como uma proposta ideológica, mas sobretudo como um modelo procedimental de governança e organização social, em que as decisões são tomadas o mais próximo possível do indivíduo e que há espaço para debate e acolhimento das várias propostas de cunho ideológico, as quais serão adotadas de acordo com o pendor e visão de mundo dos cidadãos locais.
Então, quando você refletir sobre qual ideologia deverá ser adotada no Sul Livre, reflita antes sobre o ONDE isso deverá ser decidido. No final de Locuscracia (https://loja.uiclap.com/titulo/ua99301/) eu me defino como localista liberal. E explico: primeiro vem o ONDE — na localidade, no município —, depois é que vem o COMO, ou seja, a ideologia.
Sendo assim, do alto de minha suprema sabedoria, de quem detém as melhores ideias para gerir todo o universo, e também dotado de suma magnanimidade, não vou decretar, mas simplesmente sugerir: sulista, identifique-se mais como localista, e menos como de direita ou de esquerda. Deixemos esse debate para o foro adequado: nosso local de vivência.
Viva o Sul Livre – Nação Localista!

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